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Caneta emagrecedora no SUS: em que pé está em 2026

Caneta emagrecedora no SUS: entenda a Conitec, a consulta pública, o pedido de setembro de 2026 e o estudo em Porto Alegre, e o que segue valendo hoje.

Vinícius Graton · CRN-9 9877Publicado em · 11 min de leituraConteúdo informativo, escrito por nutricionista.
Mesa com almoço equilibrado: frango grelhado, feijão, arroz, salada e legumes cozidos, com um copo de água

Resumo: até 1º de novembro de 2026, as canetas emagrecedoras ainda não são oferecidas pelo SUS. A Conitec analisa pedidos de incorporação, o Ministério da Saúde acompanha pacientes em um estudo em Porto Alegre e qualquer decisão passa por consulta pública. Enquanto isso, o uso depende de avaliação individual e de prescrição médica.

Quem vê notícia nova sobre canetas no SUS quase sempre sai com a mesma dúvida: "então já posso pegar no posto?". A resposta curta é não. Mas a discussão andou bastante nos últimos meses, com siglas que quase ninguém explica, como Conitec, relatório de recomendação e consulta pública. Este texto organiza a linha do tempo em linguagem simples, mostra em que etapa o processo está e o que continua valendo para quem usa ou pensa em usar a medicação.

É um texto informativo, sem posição política. Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida são prescritos pelo seu médico, que define indicação, dose, ajuste e suspensão. A alimentação é a parte que o nutricionista acompanha, e ela não substitui a avaliação individual nem a conversa com a sua equipe de saúde.

O que é a Conitec e por que ela pesa tanto na decisão

A Conitec é a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Ela avalia se um medicamento, exame ou procedimento deve passar a ser oferecido na rede pública, olhando evidências de eficácia e segurança, custo-efetividade e impacto no orçamento. Segundo o relatório oficial da própria Conitec sobre a semaglutida (Relatório de Recomendação nº 1033, de agosto de 2025), o fluxo funciona assim: o Comitê de Medicamentos emite uma recomendação preliminar, ela é aberta a consulta pública por 20 dias (ou 10, em casos de urgência), as contribuições são analisadas, o comitê emite a deliberação final, e a decisão vai para o Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde, que pode pedir audiência pública. A portaria que formaliza a decisão é publicada no Diário Oficial da União.

Ou seja, a Conitec recomenda, mas quem decide é o Ministério, por meio da secretaria responsável. E nada disso acontece de um dia para o outro: cada etapa tem documento, data e participação social.

Linha do tempo: do primeiro "não" ao novo pedido

2025: a primeira análise da semaglutida

O pedido avaliado em 2025 era restrito: semaglutida para adultos com obesidade grau II e III (IMC igual ou maior que 35), sem diabetes, a partir de 45 anos e com doença cardiovascular já estabelecida. Essa população é parecida com a do estudo SELECT, no qual 17.604 pessoas com doença cardiovascular e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, receberam semaglutida 2,4 mg ou placebo. Eventos cardiovasculares graves ocorreram em 6,5% do grupo da semaglutida e em 8,0% do grupo placebo, com razão de risco de 0,80 (Lincoff et al., 2023).

Mesmo assim, em 8 de maio de 2025, na 140ª reunião, a Conitec recomendou de forma preliminar a não incorporação. O relatório cita como motivos a razão de custo-efetividade elevada, o impacto orçamentário expressivo e a incerteza sobre o tempo de uso do medicamento.

Junho de 2025: a consulta pública

A Consulta Pública nº 47/2025 ficou aberta de 9 a 30 de junho de 2025 e recebeu 1.201 contribuições, das quais 1.199 foram consideradas válidas. Pacientes foram 45% dos participantes e profissionais de saúde, 37,2%. Segundo o relatório, 98,5% dos respondentes se manifestaram a favor da incorporação. A consulta serve para ouvir a sociedade, mas não é uma votação: o comitê pondera os argumentos junto com as evidências e os custos.

20 de agosto de 2025: decisão final do comitê

Na 25ª reunião extraordinária, o Comitê de Medicamentos manteve, por maioria simples, a recomendação de não incorporar a semaglutida para aquele grupo específico. O relatório destaca os valores elevados de impacto orçamentário, a incerteza sobre o tempo de uso e a necessidade de ações integradas de cuidado, já que o manejo com medicamentos em escala populacional deve vir junto de outras estratégias. Importante: a decisão se refere àquela população e àquele pedido, não ao medicamento em geral.

Em 15 de setembro de 2025, a Portaria SECTICS/MS nº 67 tornou pública a decisão de não incorporar a liraglutida para obesidade com diabetes tipo 2, outro pedido avaliado em paralelo.

Dezembro de 2025: a diretriz da OMS

Em 1º de dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou sua primeira diretriz sobre terapias com GLP-1 para o tratamento de longo prazo da obesidade em adultos, abrangendo liraglutida, semaglutida e tirzepatida. As recomendações são condicionais, e não fortes, por causa de dados limitados sobre eficácia e segurança a longo prazo, manutenção e suspensão, e por questões de custo, preparo dos sistemas de saúde e equidade. A OMS também sugere que programas intensivos de alimentação saudável e atividade física possam ser oferecidos junto com o medicamento, com evidência de baixa certeza, e alerta que, sem políticas deliberadas, o acesso pode aumentar desigualdades.

Julho de 2026: novos registros na Anvisa

Em 29 de julho de 2026, o Ministério da Saúde divulgou que a Anvisa registrou cinco novos medicamentos à base de semaglutida de uma só vez. Na mesma nota, o Ministério afirma que a semaglutida e outros medicamentos da classe ainda não são oferecidos pelo SUS e que a Conitec analisa um pedido de incorporação da semaglutida.

24 de setembro de 2026: o Ministério protocola o pedido

Nessa data, o próprio Ministério da Saúde protocolou na Conitec um pedido de análise para incorporar ao SUS medicamentos à base de semaglutida ou liraglutida, princípios ativos sem proteção de patente, para o tratamento de pacientes com obesidade. A nota oficial informa que 25 canetas já foram registradas no país, 14 delas em 2026, e que uma eventual incorporação deverá estabelecer critérios clínicos de acesso, concentrando o tratamento em quem possa ter benefício relevante.

O estudo em Porto Alegre

Em paralelo à análise regulatória, o Ministério iniciou um protocolo de pesquisa com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, para acompanhar cerca de 250 pessoas do SUS com obesidade grave ou com comorbidades e indicação de cirurgia bariátrica. Os primeiros resultados estão previstos para 2027 e devem ajudar a definir como o tratamento poderia ser implantado na rede pública.

É um estudo, não um programa aberto. Quem não faz parte do protocolo não consegue o medicamento por essa via.

O que segue valendo hoje

  • Ainda não há oferta geral no SUS. A Conitec está analisando; depois do parecer, há consulta pública e decisão final do Ministério.
  • A prescrição continua sendo médica. Quem decide indicação, dose, troca e suspensão é o seu médico, não o nutricionista nem a internet.
  • Notícia de análise não é notícia de aprovação. Desconfie de mensagens que prometem "caneta grátis no SUS" ou pedem dados e pagamento para "entrar na fila". Informação oficial está nos sites do Ministério da Saúde e da Conitec.
  • Se um dia houver incorporação, haverá critérios. O Ministério já indicou que o acesso deve seguir critérios clínicos. Isso significa que nem todo mundo que deseja a medicação teria direito a ela na rede pública.

Por que a alimentação continua no centro

Um dos pontos que mais aparecem nos documentos oficiais é que o medicamento sozinho não resolve. A Conitec escreveu que o manejo farmacológico da obesidade em escala populacional deve estar integrado a outras estratégias complementares, e a OMS diz o mesmo ao incluir alimentação saudável, atividade física e apoio profissional na abordagem completa.

Há outro ponto prático. No acompanhamento de um ano após a suspensão da semaglutida no estudo STEP 1, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e as melhoras metabólicas voltaram em direção ao valor inicial (Wilding et al., 2022). Isso ajuda a entender por que a Conitec discute tanto a incerteza sobre o tempo de uso, e por que um plano alimentar sustentável importa antes, durante e depois de qualquer tratamento. Se esse é o seu caso, vale ler também o que esperar ao parar a caneta emagrecedora.

Nos ensaios clínicos, a medicação faz diferença: no STEP 1, com 1.961 adultos sem diabetes, a variação média de peso em 68 semanas foi de menos 14,9% com semaglutida 2,4 mg e menos 2,4% com placebo, ambos junto de intervenção no estilo de vida (Wilding et al., 2021). Resultado individual, porém, varia, e nenhum número de estudo é promessa para uma pessoa.

Outros ensaios mostram o mesmo padrão com outros princípios ativos. No SURMOUNT-1, com 2.539 adultos com obesidade e sem diabetes, a variação média de peso em 72 semanas ficou entre menos 15,0% e menos 20,9% com tirzepatida, conforme o grupo de dose estudado, contra menos 3,1% com placebo (Jastreboff et al., 2022). No SCALE, com 3.731 adultos sem diabetes acompanhados por 56 semanas, quem usou liraglutida perdeu em média 8,4 kg, contra 2,8 kg no grupo placebo; 63,2% e 27,1%, respectivamente, perderam pelo menos 5% do peso (Pi-Sunyer et al., 2015). Em ambos, o efeito adverso mais comum foi gastrointestinal, como enjoo e diarreia, e todos os participantes recebiam orientação de estilo de vida. Esses números vêm de estudos controlados e não dizem o que acontecerá com você.

Exemplo de um dia alimentar com porções caseiras

Quem usa medicação prescrita costuma ter menos fome e comer pouco, o que torna a qualidade de cada refeição mais importante. O exemplo abaixo é genérico, só para ilustrar a lógica. O seu plano depende de avaliação individual, de exames e das orientações do seu médico.

  • Café da manhã: 1 pote pequeno de iogurte natural com 2 colheres de sopa de aveia e 1 fruta pequena picada, mais 1 ovo mexido.
  • Lanche da manhã: 1 fatia de queijo branco com 1 pera ou 1 punhado pequeno de castanhas.
  • Almoço: 1 concha pequena de feijão, 3 colheres de sopa de arroz, 1 filé pequeno de frango grelhado ou peixe, salada de folhas à vontade e 2 colheres de sopa de legumes cozidos.
  • Lanche da tarde: 1 copo de leite ou iogurte e 1 fatia de pão integral com ovo ou queijo.
  • Jantar: 1 prato de sopa de legumes com carne desfiada ou uma omelete com legumes.
  • Ao longo do dia: água em pequenos goles, já que a sede também diminui em algumas pessoas.

Para variar o cardápio com pouco esforço, veja a sopa de legumes com carne desfiada e o mingau proteico de aveia. Para entender quanto de proteína faz sentido nesse contexto, leia quanta proteína comer com caneta emagrecedora e, para o panorama geral, o que comer com caneta emagrecedora. Quem busca acompanhamento específico encontra mais informações em dieta com canetas emagrecedoras.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda

Este bloco vale para qualquer pessoa em tratamento com esse tipo de medicação, seja obtida com receita ou, no futuro, em um programa público.

Procure pronto atendimento ou ligue para o SAMU 192 se houver:

  • dor forte e persistente na barriga, principalmente se irradia para as costas, com ou sem vômitos;
  • vômitos que não param, com incapacidade de beber líquidos ou sinais de desidratação, como tontura intensa, urina muito escura ou quase ausente;
  • desmaio, confusão mental, convulsão ou fraqueza intensa e repentina;
  • falta de ar, inchaço no rosto ou na garganta, ou manchas e coceira espalhadas pelo corpo logo após uma dose;
  • suor frio, tremores, palpitação e mal-estar súbito em quem usa insulina ou sulfonilureia, que podem indicar hipoglicemia.

Avise o seu médico, sem esperar a próxima consulta, se houver:

  • enjoo, prisão de ventre ou diarreia que persistem e atrapalham a alimentação;
  • perda de peso muito rápida, fraqueza ou queda de cabelo importante;
  • episódios repetidos de tontura, tremor ou suor frio, especialmente se você usa insulina ou sulfonilureia, porque a hipoglicemia é um risco conhecido nessas combinações;
  • qualquer dúvida sobre a dose, os horários ou a continuidade do tratamento.

Quem tem diabetes e usa insulina ou sulfonilureia precisa ter atenção redobrada com jejum prolongado e refeições muito reduzidas. Qualquer mudança de dose ou de medicamento é decisão do médico. Nunca ajuste, pause ou troque por conta própria.

Referências

  1. Ministério da Saúde, Conitec. Relatório de Recomendação nº 1033: semaglutida para o tratamento de pacientes com obesidade grau II e III, sem diabetes, com idade a partir de 45 anos e com doença cardiovascular estabelecida. Brasília, agosto de 2025. gov.br/conitec.
  2. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde protocola na Conitec pedido de análise para incorporação de canetas emagrecedoras no SUS. Notícia de 24/09/2026. gov.br/saude.
  3. Ministério da Saúde. Anvisa registra cinco novos medicamentos à base de semaglutida. Notícia de 29/07/2026. gov.br/saude.
  4. Organização Mundial da Saúde. WHO issues global guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity. Comunicado de 1º de dezembro de 2025. who.int.
  5. Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). N Engl J Med, 2023;389(24):2221-2232. PubMed.
  6. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). N Engl J Med, 2021;384(11):989-1002. PubMed.
  7. Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab, 2022;24(8):1553-1564. PubMed.
  8. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med, 2022;387(3):205-216. PubMed.
  9. Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, et al. A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management (SCALE). N Engl J Med, 2015;373(1):11-22. PubMed.

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Vinícius Graton · CRN-9 9877

Perguntas frequentes

As canetas emagrecedoras já são gratuitas no SUS?

Não. Segundo o Ministério da Saúde, a semaglutida e outros medicamentos da classe ainda não são oferecidos pelo SUS. Há um pedido em análise na Conitec e um estudo com pacientes em Porto Alegre.

O que significa a Conitec ter dito "não" em 2025?

Significa que, para o pedido específico daquela época, a comissão recomendou não incorporar, principalmente por impacto orçamentário e incerteza sobre o tempo de uso. Novos pedidos podem ser avaliados, e foi o que o Ministério fez em setembro de 2026.

A consulta pública decide se a caneta entra no SUS?

Não decide sozinha. Ela reúne opiniões e dados da sociedade, que o comitê analisa antes da deliberação final. A decisão formal é do Ministério, por meio da secretaria responsável, e é publicada em portaria.

Posso participar do estudo do Grupo Hospitalar Conceição?

O protocolo acompanha cerca de 250 pessoas do SUS com critérios definidos pela pesquisa. Não é um programa aberto à demanda espontânea. Informações oficiais ficam com o Ministério da Saúde e com o próprio hospital.

Se a caneta entrar no SUS, todo mundo terá acesso?

O Ministério informou que a eventual incorporação deverá estabelecer critérios clínicos de acesso. Quem poderia receber só será conhecido após a decisão final e a publicação dos protocolos.

A alimentação ainda importa se eu usar a medicação?

Sim. Tanto a OMS quanto a Conitec tratam o medicamento como parte de uma abordagem que inclui alimentação, atividade física e acompanhamento. Um plano individual ajuda a preservar massa muscular e a manter hábitos depois.

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