Diretriz ABESO 2026 e obesidade como doença crônica
Diretriz ABESO 2026 e obesidade como doença crônica: o que a ABESO e consensos recentes dizem sobre IMC, estigma e o papel da nutrição no cuidado.

Resumo: a obesidade é descrita pela ABESO como doença crônica, e consensos recentes defendem avaliar mais do que o IMC isolado, com menos culpa e mais estratégia. A nutrição entra como parte de um plano com o médico e outros profissionais. O que cabe a cada pessoa depende de avaliação individual.
Toda vez que uma diretriz nova sobre obesidade ganha as manchetes, surgem as mesmas dúvidas: o que mudou, o que isso significa para mim e se o jeito de comer vai ter de mudar. Este texto organiza o que dá para afirmar com segurança a partir de documentos que foram lidos na fonte, explica o que é ainda incerto e mostra como a alimentação se encaixa no cuidado.
Uma observação de transparência antes de continuar. O portal da Diretriz ABESO 2026 é organizado por áreas de cuidado, e o capítulo que estava disponível na consulta feita para este artigo é o de obesidade pediátrica; os capítulos de adultos e de nutrição aparecem como "em breve", e o acesso ao conteúdo é restrito a profissionais de saúde. Por isso, este artigo não atribui à diretriz de 2026 números ou recomendações que não foram lidos nela. As ideias centrais abaixo vêm de documentos anteriores da própria ABESO, da Comissão publicada no The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2025 e de outros consensos, todos abertos e conferidos. Conteúdo informativo, que não substitui consulta médica ou nutricional.
Obesidade como doença crônica: o que isso quer dizer
Chamar a obesidade de doença crônica não é um rótulo para assustar. É uma forma de dizer que se trata de uma condição de longa duração, com causas múltiplas, que pede acompanhamento contínuo, como acontece com a hipertensão ou o diabetes. O posicionamento da ABESO sobre tratamento nutricional descreve a obesidade como uma doença crônica, progressiva, de causas multifatoriais. Já o documento de atualização de 2024 da ABESO e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) a descreve como doença crônica e recorrente, e afirma que tratar a obesidade é muito mais do que "emagrecer", incluindo a manutenção do peso perdido e os benefícios para além da balança.
Uma diretriz suíça de prática clínica publicada em 2026 segue a mesma linha: descreve a obesidade como doença crônica, recorrente e multifatorial e orienta que a avaliação e o cuidado mirem a saúde geral, a resolução de comorbidades e os ganhos funcionais, e não apenas a perda numérica de peso.
A World Obesity Federation já havia publicado, em 2017, uma tomada de posição nesse sentido: a obesidade como processo de doença crônico, com recaídas e progressivo, em que fatores genéticos, ambiente com muita comida de alta densidade de energia e pouco movimento interagem. A palavra "recidivante" ou "recorrente" tem uma consequência prática importante: voltar a ganhar peso depois de perder não é, por si só, prova de falta de força de vontade. Faz parte do comportamento da condição: uma revisão sobre manutenção do peso perdido descreve que as intervenções costumam levar a perda de peso inicial, seguida de platô e reganho progressivo, e que o tratamento exige atenção clínica contínua e orientação específica para a manutenção. Por isso o cuidado precisa prever essa fase desde o começo. Sobre esse ponto específico, veja também o texto sobre como lidar com o risco de reganho de peso.
Além do IMC: o que a Comissão do Lancet propôs
O índice de massa corporal (IMC) continua útil para triagem e para estudos populacionais, mas tem limites claros. A Comissão sobre obesidade clínica, formada por 58 especialistas de várias especialidades e países, com participação de pessoas que vivem com obesidade, afirma que medidas baseadas só no IMC podem tanto subestimar quanto superestimar a gordura corporal e dão pouca informação sobre a saúde de cada indivíduo.
A proposta da Comissão, publicada em 2025, separa duas situações:
- Obesidade pré-clínica: excesso de gordura com órgãos e tecidos funcionando normalmente, em que há risco aumentado de adoecer e indicação de aconselhamento, monitoramento e, quando cabível, intervenção para reduzir esse risco;
- Obesidade clínica: doença crônica e sistêmica, em que o excesso de gordura já altera a função de órgãos, de tecidos ou do corpo como um todo, ou limita de forma importante atividades do dia a dia, como se mover, tomar banho ou se vestir.
Para confirmar excesso de gordura, a Comissão recomenda medir a gordura corporal diretamente, quando disponível, ou usar pelo menos um critério de medida do corpo (como circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura) além do IMC. Em pessoas com IMC acima de 40 kg/m², o excesso de gordura pode ser presumido sem confirmação extra. A diretriz suíça de 2026 vai na mesma direção, ao recomendar integrar a circunferência da cintura e a análise da composição corporal ao IMC, já que o IMC sozinho pode não captar todo o risco cardiometabólico. A conclusão central da Comissão é que o IMC deveria ser usado como indicador de risco em nível populacional e de triagem, e não como medida isolada da saúde de uma pessoa.
Na prática de consultório, isso significa que duas pessoas com o mesmo IMC podem ter necessidades diferentes, e que quem está "dentro do peso" nem sempre está livre de risco. Quem decide o diagnóstico e a conduta é o médico; o nutricionista contribui com avaliação do consumo alimentar, da composição corporal quando o método está disponível, dos hábitos e do contexto de vida.
Menos culpa, mais estratégia
O consenso internacional publicado na Nature Medicine em 2020 reuniu especialistas e organizações científicas e concluiu que o estigma do peso é generalizado, aparece inclusive em serviços de saúde, pode causar dano físico e psicológico e faz com que pessoas com obesidade tenham menos chance de receber cuidado adequado. O documento recomenda formar uma nova narrativa pública, coerente com o conhecimento científico atual. A Comissão do Lancet segue a mesma linha ao pedir que as estratégias de saúde pública se baseiem em evidências e não em suposições que atribuem a obesidade apenas à responsabilidade individual. O documento ABESO e SBEM de 2024 também destaca a importância da linguagem para reduzir o estigma.
O que isso muda no dia a dia de quem está se cuidando?
- Troca-se a pergunta. Em vez de "por que eu não consigo?", a pergunta passa a ser "que estratégia combina com a minha rotina, o meu sono, o meu orçamento e o meu tratamento?";
- Evita-se o ciclo de dietas muito restritivas. Planos que dependem de passar fome tendem a ser difíceis de sustentar, e a experiência de "fracassar" alimenta a culpa;
- Mede-se mais do que o peso. Exames, pressão, circunferência da cintura, força, disposição, sono e qualidade de vida contam como resultado;
- Planeja-se a manutenção. Se a condição é crônica, a fase de manutenção faz parte do tratamento e não é um "prêmio" para depois.
Onde entra a terapia nutricional
Os documentos da ABESO tratam a alimentação como parte do cuidado, e não como o único ponto. O posicionamento nutricional da entidade foi elaborado pelo departamento de nutrição da associação com nutricionistas de pesquisa e clínica, e aborda estratégias alimentares para o manejo do sobrepeso e da obesidade. Já o texto de 2024 mostra que o tratamento da obesidade envolve outras frentes, entre elas o tratamento medicamentoso, que é prescrito e acompanhado pelo médico.
A diretriz suíça de 2026 descreve a base do cuidado como uma intervenção de estilo de vida em várias frentes: terapia nutricional que favorece dietas pouco processadas e ricas em nutrientes, plano de atividade física individualizado que inclui treino de força e estratégias comportamentais, como a terapia cognitivo-comportamental, para a alimentação emocional. Para pessoas idosas, o documento prioriza preservar massa muscular e saúde dos ossos mais do que a perda de peso em si.
Num plano multiprofissional, as tarefas costumam se dividir assim:
- Médico: diagnóstico, exames, avaliação de complicações, decisão sobre medicamentos, doses e eventuais ajustes;
- Nutricionista: plano alimentar individual, ajuste de proteínas, fibras e porções, estratégias para fome e saciedade, apoio à manutenção, adaptação à rotina e ao orçamento;
- Profissional de educação física: treino de força e atividade aeróbica adequados à condição de cada pessoa;
- Psicólogo, quando indicado: comportamento alimentar, ansiedade, compulsão e estigma internalizado.
Quem usa medicamento para obesidade prescrito pelo médico costuma ter apetite menor, e isso exige atenção à qualidade do que se come em porções pequenas. Se esse é o seu caso, vale ler o guia sobre o que comer com caneta emagrecedora e o texto sobre quanta proteína comer. A indicação, a dose e a decisão de manter ou suspender o medicamento são sempre do seu médico.
Princípios práticos que valem em qualquer plano
Sem substituir uma avaliação individual, alguns princípios aparecem de forma consistente nos materiais de nutrição e são úteis como ponto de partida para conversar com o seu nutricionista:
- Prato com base em comida de verdade: legumes, verduras, frutas, feijões, ovos, carnes magras, peixes, leite e derivados, arroz e outros cereais, com poucos ultraprocessados;
- Proteína distribuída nas refeições, o que ajuda na saciedade e na preservação da massa muscular, principalmente se houver perda de peso;
- Fibras todos os dias, vindas de legumes, verduras, frutas com casca, leguminosas e grãos integrais;
- Hidratação: água ao longo do dia, ajustada se houver restrição orientada pelo médico;
- Regularidade: horários mais ou menos fixos reduzem os "beliscos" por fome acumulada;
- Sono e movimento: dormir bem e incluir treino de força e caminhadas fazem parte do plano, não são extras.
Para uma visão geral, leia também o que comer para emagrecer com saúde.
Exemplo de um dia alimentar (modelo ilustrativo)
Este é um exemplo genérico, com porções caseiras, para ilustrar a lógica de um dia equilibrado. Ele não é prescrição: as quantidades, a necessidade de proteína e de energia e as adaptações para doenças ou medicamentos dependem de avaliação individual.
- Café da manhã: 1 pão integral ou 3 colheres de sopa de aveia, 2 ovos mexidos ou 1 fatia de queijo branco, 1 fruta e café ou chá sem açúcar;
- Lanche da manhã: 1 iogurte natural com 1 colher de sopa de chia ou 1 fruta pequena com um punhado de castanhas;
- Almoço: metade do prato de salada e legumes, 1 concha de feijão, 3 a 4 colheres de sopa de arroz, 1 filé médio de frango, peixe ou carne magra e 1 fio de azeite;
- Lanche da tarde: 1 fruta com 1 fatia de queijo ou 1 copo de leite ou bebida vegetal, ou ainda uma panqueca de banana e aveia;
- Jantar: opção como frango desfiado com ervas, legumes refogados e uma porção pequena de carboidrato, como batata cozida ou arroz;
- Ceia, se houver fome: 1 copo de leite morno ou 1 iogurte natural.
Quem usa medicamento que reduz o apetite pode precisar de porções menores e de mais refeições pequenas; quem tem diabetes, doença renal, doença no fígado ou outras condições precisa de adaptação individual. Veja também a página de ferramentas, e o acompanhamento para emagrecimento detalha o plano para o seu caso.
O que ainda é incerto
- O texto completo da diretriz de 2026 para adultos e para nutrição não estava disponível ao público na consulta feita; portanto, critérios específicos de início de tratamento e metas de perda de peso devem ser conferidos com o seu médico, que tem acesso ao documento;
- A adoção dos critérios da Comissão do Lancet na rotina do sistema de saúde brasileiro ainda é um processo; o consenso foi publicado em 2025 e a incorporação em protocolos leva tempo;
- Cada pessoa responde de um jeito a alimentação, ao treino e aos medicamentos, e nenhum documento geral prevê o que acontecerá com você.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
Procure um pronto atendimento ou ligue para o SAMU (192) se houver:
- dor forte no peito, falta de ar intensa ou desmaio;
- fraqueza de um lado do corpo, fala arrastada ou rosto torto;
- vômitos que não param, dor abdominal intensa ou sinais de desidratação, como boca muito seca, tontura e pouca urina;
- confusão mental, suor frio, tremores intensos ou sonolência importante, em especial em quem usa insulina ou medicamento para diabetes (possível hipoglicemia).
Avise o seu médico, em consulta ou por contato do consultório, se notar:
- ganho de peso rápido, inchaço nas pernas, cansaço novo ou piora de dor nas articulações;
- pressão ou glicemia fora do esperado;
- perda de peso rápida demais, fraqueza ou queda de cabelo importante;
- sinais de compulsão alimentar, tristeza persistente, ansiedade com a comida ou pensamentos de se punir;
- qualquer dúvida sobre o seu medicamento, que não deve ser alterado por conta própria.
Atenção em quem tem diabetes: quem usa insulina ou sulfonilureia pode ter hipoglicemia (queda do açúcar no sangue) ao pular refeições, fazer jejum, seguir dieta muito restritiva ou ao usar medicamentos que reduzem o apetite. Sintomas como tremor, suor frio, fome súbita, tontura e confusão devem ser avaliados com urgência. Qualquer ajuste de medicamento é uma decisão do seu médico; não mude doses por conta própria.
Referências
- Rubino F, Cummings DE, Eckel RH, Cohen RV et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025. PubMed.
- Bray GA, Kim KK, Wilding JPH; World Obesity Federation. Obesity: a chronic relapsing progressive disease process. A position statement of the World Obesity Federation. Obesity Reviews, 2017. PubMed.
- Rubino F, Puhl RM, Cummings DE, Eckel RH et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nature Medicine, 2020. PubMed.
- Gerber PA, Collet TH, Favre L, Bueter M et al. Swiss obesity clinical practice guidance. Swiss Medical Weekly, 2026. PubMed.
- Hall KD, Kahan S. Maintenance of lost weight and long-term management of obesity. Medical Clinics of North America, 2018. PubMed.
- Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade. ABESO, 2022. Documento da ABESO.
- ABESO e Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Tratamento farmacológico do indivíduo adulto com obesidade e seu impacto nas comorbidades: atualização 2024 e posicionamento de especialistas. Editora Clannad, 2024. Documento da ABESO.
- ABESO. Diretriz ABESO 2026 (portal de diretrizes, com o capítulo de obesidade pediátrica; capítulos de adultos e de nutrição indicados como em breve). Portal da diretriz.
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Perguntas frequentes
A obesidade é mesmo uma doença?
A ABESO descreve a obesidade como doença crônica, e a Comissão do Lancet de 2025 propõe o termo obesidade clínica para os casos em que o excesso de gordura já compromete órgãos, tecidos ou atividades do dia a dia. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação médica individual.
O IMC deixou de valer?
Não. O consenso recomenda usar o IMC como triagem e indicador populacional e confirmar o excesso de gordura com medidas adicionais, como circunferência da cintura ou relação cintura-altura. A interpretação no seu caso depende de avaliação individual.
Se a obesidade é crônica, adianta me cuidar?
Sim. Doença crônica significa cuidado contínuo, como na hipertensão. Melhorar hábitos, exames, força e qualidade de vida traz benefícios mesmo quando o peso oscila, e o resultado depende de avaliação individual.
A nutrição sozinha resolve?
Ela é parte importante, mas os documentos descrevem um cuidado em várias frentes: avaliação médica, alimentação, movimento, apoio psicológico quando indicado e, em alguns casos, medicamentos prescritos pelo médico.
Posso começar ou suspender medicamento por causa de uma diretriz?
Não. Indicação, dose, troca e suspensão são decisões exclusivas do seu médico. O nutricionista adapta a alimentação ao plano definido por ele.
Como saber em qual critério eu me encaixo?
É preciso avaliação individual, com medidas do corpo, exames, histórico de saúde e o efeito do excesso de gordura no seu dia a dia. Converse com o seu médico e com o seu nutricionista.