Eritritol faz mal? O que a ciência diz sobre o coração
Eritritol faz mal ao coração? Veja o que mostram os estudos de 2022 a 2025, os limites deles, como ler o rótulo e quando procurar um médico.

Eritritol faz mal? Até agora, a ligação com infarto e AVC vem de estudos observacionais e de um pequeno estudo de intervenção em voluntários, e nenhum deles prova que o adoçante cause eventos do coração. O assunto segue em debate. Não é motivo de pânico, mas é motivo de atenção para quem já tem risco cardiovascular. Depende de avaliação individual.
O eritritol está em adoçantes de mesa, em produtos "zero açúcar", em barras de proteína, em sorvetes e em muitos itens fit. Em 2023, um estudo publicado numa grande revista de medicina associou níveis altos dele no sangue a mais eventos cardiovasculares, e a notícia correu o mundo. Desde então, muita gente passou a perguntar se deve cortar tudo o que tem esse ingrediente. Este texto explica o que cada estudo fez, o que ele consegue e o que não consegue concluir, e como organizar o uso do dia a dia com calma. É conteúdo informativo, sem promessa de resultado, e não substitui consulta médica ou nutricional. Não cito marca de produto.
O que é o eritritol
O eritritol é um álcool de açúcar (poliol). Segundo uma revisão narrativa publicada na revista Nutrients, ele existe naturalmente em plantas, mas o que se usa na indústria é produzido por fermentação. É cerca de 30% menos doce que a sacarose e tem energia desprezível. Como é quase todo absorvido e eliminado na urina, costuma ser mais bem tolerado no intestino do que outros polióis (Mazi e Stanhope, Nutrients, janeiro de 2023, referência 4). Na prática, é o ingrediente que muitas pessoas procuram justamente para reduzir açúcar sem sentir tanto desconforto na barriga.
Um detalhe importante: o corpo humano também fabrica eritritol por conta própria, pela chamada via das pentoses-fosfato. Ou seja, o nível dele no sangue não vem só do que se come. Isso vai pesar muito na interpretação dos estudos, como você verá a seguir.
O estudo de 2023: o que ele mostrou
O trabalho que deu origem à discussão foi publicado por Witkowski e colaboradores na Nature Medicine, em 2023. Os pesquisadores começaram com uma análise de metabolitos no sangue de 1.157 pessoas que faziam avaliação de risco cardíaco e viram que vários polióis, principalmente o eritritol, estavam associados a eventos cardiovasculares maiores nos três anos seguintes (morte, infarto não fatal ou AVC). Depois, em duas outras coortes de validação, uma dos Estados Unidos (2.149 pessoas) e uma da Europa (833 pessoas), a associação se confirmou. Comparando o quarto mais alto de eritritol no sangue com o mais baixo, a razão de risco (hazard ratio) ajustada foi de 1,80 (intervalo de confiança de 95%: 1,18 a 2,77) e de 2,21 (1,20 a 4,07), respectivamente (Witkowski et al., 2023).
Os autores também relatam que, em níveis fisiológicos, o eritritol aumentou a reatividade das plaquetas em experimentos de laboratório e a formação de trombos em um modelo animal. Por fim, num estudo-piloto de intervenção, voluntários saudáveis (n = 8) tomaram eritritol e ficaram com níveis no sangue muito acima do limiar associado a maior reatividade plaquetária, por mais de dois dias, sem que se tenha medido infarto ou AVC.
O que esse estudo não consegue dizer
- Ele mede o nível no sangue, não o que a pessoa comeu. As coortes eram de pacientes em avaliação cardíaca, não da população geral, e o eritritol medido no sangue inclui o que o corpo produz.
- Associação não é causa. Estudo observacional mostra que duas coisas andam juntas, não que uma provoque a outra.
- A parte de intervenção é muito pequena. Oito voluntários, uma única exposição, e o desfecho foi um marcador de laboratório (plaquetas), não infarto nem AVC.
O estudo de intervenção de 2024
Para responder à lacuna da intervenção, o mesmo grupo publicou em 2024 na Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology um estudo com voluntários saudáveis, 10 por grupo. Um grupo recebeu 30 g de eritritol e o outro 30 g de glicose. Só o grupo do eritritol teve aumento de mais de 1.000 vezes do nível no plasma e aumento das respostas de agregação plaquetária a estímulos, em todos os participantes, agonistas e doses examinados. No grupo da glicose, não houve aumento significativo da liberação de serotonina e de CXCL4, dois marcadores de ativação das plaquetas (Witkowski et al., 2024).
O que isso quer dizer: uma dose única, dada de uma vez, em poucas pessoas, deixou as plaquetas mais reativas de forma aguda, em exames de laboratório. Os próprios autores falam em "preocupações" e dizem que vale discutir se o eritritol deve ser reavaliado como aditivo de status "geralmente reconhecido como seguro", não em dano comprovado. O estudo mediu marcadores de plaquetas, não infarto nem AVC, e não avaliou o uso repetido ao longo de meses ou anos. Esse número de 30 g descreve o que foi testado, não é uma recomendação de quantidade.
O outro lado: por que o eritritol alto pode ser só um marcador
Uma revisão narrativa de Mazi e Stanhope, publicada na Nutrients em setembro de 2023 (referência 3), reúne argumentos de que o eritritol elevado no sangue pode ser mais um sinal de desregulação metabólica do que uma causa. Segundo os autores, pessoas com erros inatos do metabolismo que mantêm eritritol cronicamente alto não apresentam maior ativação plaquetária nem mais risco de trombose, e a maior parte dos estudos de longo prazo em animais não sustenta o papel do eritritol na formação de trombos. A hipótese deles é que o eritritol seja um marcador de alteração na via das pentoses-fosfato, causada por glicemia prejudicada, e dizem que essa ideia, assim como os achados de Witkowski, ainda precisa ser examinada. A conclusão deles é que, enquanto não houver ensaios clínicos de longo prazo, não se pode afirmar que o eritritol da dieta promova trombose ou risco cardiometabólico (Mazi e Stanhope, 2023, Nutrients 15(18)). Vale dizer que uma das autoras declarou ter sido contratada e paga por uma empresa do setor (a Amyris) para escrever revisões sobre o tema, o que a revista tornou público. A revisão de janeiro de 2023, que também trata do eritritol, teve a submissão aprovada pela mesma empresa. Por isso, leia essas revisões com a mesma cautela que se tem com o estudo de 2023.
Na mesma linha, um estudo suíço publicado em 2025, com análise transversal e análise após cirurgia bariátrica, mediu o plasma em jejum de 218 pessoas (adolescentes magros, adultos magros e adultos com obesidade, incluindo 15 operados de cirurgia bariátrica). Nele, a idade foi um preditor do eritritol em jejum, e o IMC, a glicose e a insulina não; depois da cirurgia, a variação do IMC (mas não a da glicose ou da insulina) foi preditora da variação do eritritol. Os autores concluem que os processos que regulam a produção do corpo ainda não são claros e que mudanças fisiológicas ligadas à idade podem influenciar esses níveis (Flad et al., 2025). Esse trabalho não testou o consumo do adoçante, mas reforça que o nível no sangue tem várias origens.
E os adoçantes em geral?
O eritritol não é o único adoçante em discussão. Na coorte francesa NutriNet-Santé, com 103.388 adultos acompanhados entre 2009 e 2021, o consumo total de adoçantes artificiais (aspartame, acessulfame de potássio e sucralose, que são outras moléculas) esteve associado a um risco 9% maior de doença cardiovascular (razão de risco 1,09, em 1.502 eventos; intervalo de confiança de 95%: 1,01 a 1,18). Em números absolutos, a incidência foi de 346 por 100 mil pessoas-ano nos maiores consumidores (acima da mediana de cada sexo) e de 314 nos não consumidores (Debras et al., BMJ, 2022). Os autores viram a associação principalmente com doença cerebrovascular (razão de risco 1,18) e, por molécula, aspartame com eventos cerebrovasculares, acessulfame de potássio e sucralose com doença coronariana. Repare que o desenho também é observacional: pessoas que usam muito adoçante podem diferir das outras em peso, glicemia e hábitos, mesmo com ajustes estatísticos.
Resumo honesto do quadro: há sinais de alerta consistentes o bastante para justificar cautela e mais pesquisa, mas ainda falta o estudo que acompanhe pessoas comendo ou não eritritol por anos e conte os eventos do coração. Quem diz que "está provado que faz mal" exagera, e quem diz que "está provado que é totalmente seguro" também.
O que isso muda na prática
Para a maior parte das pessoas, a conclusão útil não é "cortar tudo", e sim "olhar o conjunto". Alguns pontos ajudam:
- Leia o rótulo na lista de ingredientes. O eritritol aparece com esse nome ou como "poliol" ou "álcool de açúcar". Produtos "zero açúcar", "fit" e "proteicos" costumam levá-lo. Veja também o texto sobre como ler o rótulo de suplementos proteicos e sobre produtos high protein.
- Some as fontes. O que importa é o conjunto do dia: adoçante na bebida, barra, sorvete, sobremesa de pote, chiclete. Um item isolado pesa pouco, e vários juntos pesam mais.
- Reduza o gosto muito doce, não só troque o açúcar. O paladar se adapta. Diminuir aos poucos a doçura do café, do iogurte e do suco costuma funcionar melhor do que substituir um doce por outro.
- Priorize comida de verdade. Fruta, iogurte natural, aveia, cacau em pó sem açúcar e canela já dão doçura e sabor sem depender de adoçante. Para ideias de lanches, veja as receitas overnight oats de cacau e panqueca de banana e aveia.
- Quem tem diabetes, pré-diabetes ou risco cardiovascular merece conversa individual. O adoçante é só uma parte do quadro. Veja mais em diabetes e resistência à insulina e em pré-diabetes: o que comer.
Exemplo de um dia alimentar com menos dependência de adoçante
Este é apenas um exemplo ilustrativo, para mostrar como a doçura pode vir de alimentos inteiros. As porções variam de pessoa para pessoa e dependem de avaliação individual.
- Café da manhã: 1 pote pequeno de iogurte natural, 1 banana média picada, 2 colheres de sopa de aveia e canela; café com leite sem adoçante, ou com a doçura reduzida aos poucos.
- Lanche da manhã: 1 fruta (por exemplo, 1 maçã média ou 1 laranja) e um punhado pequeno de castanhas.
- Almoço: prato com metade de salada e legumes, um quarto de arroz e feijão, um quarto de proteína (frango, peixe, ovos ou carne magra). Fruta de sobremesa.
- Lanche da tarde: 1 ovo cozido e 1 fatia de pão integral com queijo branco, ou 1 copo pequeno de iogurte natural com frutas.
- Jantar: sopa de legumes com frango desfiado ou omelete com legumes, e salada. Quem gosta de algo doce pode comer uma fruta assada com canela.
Se você usa barras, bebidas "zero" ou sobremesas de pote com frequência, não precisa cortar tudo de uma vez. Vá trocando uma ou duas por semana por uma opção mais simples e observe como se sente. Para quem treina, o cuidado com suplementos e bebidas energéticas tem outros pontos de atenção, que expliquei no texto sobre pré-treino e cafeína.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
Os sinais abaixo não são específicos de adoçante e podem ter várias causas, mas merecem atenção, em dois níveis:
Emergência: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro
- Dor ou aperto no peito, principalmente se irradiar para braço, mandíbula ou costas.
- Falta de ar intensa ou súbita.
- Fraqueza súbita de um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou perda de visão repentina.
- Desmaio ou sensação de que vai desmaiar junto com algum dos sintomas acima.
Avise seu médico (sem urgência, mas não deixe passar)
- Palpitações que se repetem, tontura frequente ou cansaço novo ao subir escada ou caminhar.
- Inchaço nas pernas ou dor e vermelhidão numa só perna.
- Pressão alta, glicemia alterada ou colesterol alto que ainda não foram avaliados.
- Histórico de infarto, AVC, trombose ou arritmia em você ou na família: se você também usa muitos produtos com adoçante, converse com o médico para entender o que isso significa no seu caso.
- Qualquer dúvida sobre medicamentos. Quem toma remédios para o coração, para a pressão ou para a glicose deve conversar com o médico que prescreveu, e nunca mudar o tratamento por conta própria por causa de um rótulo ou de uma notícia.
Referências
- Witkowski M, Nemet I, Alamri H, Wilcox J, et al. The artificial sweetener erythritol and cardiovascular event risk. Nat Med, 2023;29(3):710-718. PubMed.
- Witkowski M, Wilcox J, Province V, Wang Z, et al. Ingestion of the Non-Nutritive Sweetener Erythritol, but Not Glucose, Enhances Platelet Reactivity and Thrombosis Potential in Healthy Volunteers-Brief Report. Arterioscler Thromb Vasc Biol, 2024;44(9):2136-2141. PubMed.
- Mazi TA, Stanhope KL. Elevated Erythritol: A Marker of Metabolic Dysregulation or Contributor to the Pathogenesis of Cardiometabolic Disease? Nutrients, 2023;15(18):4011. PubMed.
- Mazi TA, Stanhope KL. Erythritol: An In-Depth Discussion of Its Potential to Be a Beneficial Dietary Component. Nutrients, 2023;15(1):204. PubMed.
- Flad E, Altstädt A, Drewe J, Gaugler S, et al. Predictors of Fasting Endogenous Erythritol and Erythronate Concentrations in Humans: Cross-Sectional and Post-Bariatric Surgery Analyses. Int J Mol Sci, 2025;26(19):9763. PubMed.
- Debras C, Chazelas E, Sellem L, Porcher R, et al. Artificial sweeteners and risk of cardiovascular diseases: results from the prospective NutriNet-Santé cohort. BMJ, 2022;378:e071204. PubMed.
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Perguntas frequentes
Eritritol faz mal para o coração?
Ainda não se sabe com segurança. Estudos observacionais associaram níveis altos no sangue a mais eventos cardiovasculares, e um pequeno estudo de intervenção mostrou aumento de reatividade plaquetária após uma dose única. Outros autores lembram que o corpo produz eritritol e que o nível alto pode ser só um marcador de alteração metabólica. Falta ensaio clínico de longo prazo.
Preciso tirar o eritritol da minha dieta?
Não há uma regra única. Para quem tem doença cardiovascular, diabetes ou vários fatores de risco, vale conversar com o médico e com o nutricionista. Para os demais, reduzir o consumo geral de produtos adoçados e priorizar comida de verdade é uma estratégia razoável.
Outros adoçantes são mais seguros?
Também não há resposta simples. Na coorte NutriNet-Santé, o consumo total de adoçantes artificiais teve associação com mais doença cardiovascular (aspartame com eventos cerebrovasculares; acessulfame de potássio e sucralose com doença coronariana), mas em estudo observacional e com diferença absoluta que varia conforme a molécula. Nenhum adoçante está isento de discussão.
O eritritol do adoçante é o mesmo que o corpo produz?
A molécula é a mesma. O corpo produz eritritol pela via das pentoses-fosfato, e ele também ocorre naturalmente em plantas. A diferença é a quantidade: no estudo de 2024, após 30 g, o nível no plasma ficou mais de mil vezes acima do valor medido no grupo da glicose.
Eritritol engorda ou sobe a glicemia?
Segundo a revisão de Mazi e Stanhope de janeiro de 2023 (cuja submissão foi aprovada por uma empresa do setor), ele tem energia desprezível e não altera glicose nem insulina. Isso não elimina a dúvida sobre outros efeitos, e produtos com eritritol podem ter gordura, farinha e calorias de outras fontes.
Como saber se meu risco cardiovascular é alto?
Só com avaliação médica, que costuma considerar idade, pressão, colesterol, glicemia, tabagismo e histórico familiar.